O Fantástico deste domingo (31) contou a história da catadora de recicláveis Anita Antônia, que acumulou toneladas de resíduos em casa durante 20 anos. Conhecida pelos moradores por recolher lixo das ruas e de residências da região, ela recebeu a ajuda de voluntários para retirar o material acumulado, em uma ação que revelou os impactos da acumulação compulsiva e as dificuldades enfrentadas pela idosa.
“Ela pega, ela vende, ela transforma isso em dinheiro. A gente achou que era uma coisa normal. Mas, aos poucos, a gente foi percebendo que aquilo ali foi… Ela foi só somando, acumulando”, conta uma vizinha.
Mas um dia alguém olhou mais de perto para Anita, de 73 anos, e viu que ela precisava de ajuda. Guilherme Gomes é um influenciador digital que faz faxina de graça para acumuladores compulsivos. Ele compartilha as histórias das pessoas na internet. Para organizar o local, ele precisou da ajuda da Defesa Civil.

Anita resolveu trabalhar como catadora e começou a guardar o resíduo em casa com medo de roubarem o que juntou. Ela acumulou objetos que não teria condições de comprar – todos quebrados, mas não sem valor. Os catadores conhecem o mercado: os recicláveis mais valiosos são metais, como cobre, bronze, zinco. Esses materiais aparecem em computador, cabos, panelas.
“Às vezes as pessoas falam assim: ‘Ah, é lixo’. Mas não é. O lixo é aquele que não presta para nada”, diz Anita Antônia.
“As pessoas têm esse pré-julgamento: ‘são pessoas porcas, são pessoas desleixadas, como é que uma pessoa vive nesse estado?’ E falo para essas pessoas: a depressão não é frescura”, diz o influenciador digital Guilherme Gomes.

O sofrimento, o risco à segurança ou o isolamento são parte do quadro, geralmente acompanhado de depressão e ansiedade. O psiquiatra e pesquisador da USP Daniel Costa explica que há um apego aos objetos – as pessoas sentem que podem precisar dele um dia.
“Alguns objetos adquirem um valor sentimental para a pessoa. Então, portanto, se desfazer daquilo é muito sofrido. É o equivalente ali a se desfazer de algo que tem um valor material muito importante, por exemplo”, explica Daniel Costa, pesquisador do Instituto de Psiquiatria do HC/USP.
“O acúmulo de coisas deve gerar uma impossibilidade de utilizar um determinado cômodo da casa, por exemplo. E, também, para qualquer diagnóstico psiquiátrico, a gente tem que estabelecer que existe aí prejuízo na vida da pessoa”, diz o psiquiatra Daniel Costa.
Infância
Nascida em Maringá (PR), Anita Antônia cresceu sem a presença do pai, mas recebia o carinho da mãe quando terminava o serviço doméstico. A mulher hoje rodeada de lixo sabia cuidar bem de casa. Ela foi para São Paulo trabalhar como doméstica.
Anita se apaixonou e permitiu que um pedreiro fosse morar na casa que havia comprado. O casal teve um filho que necessita de cuidados especiais. Por isso, ela deixou de trabalhar para se dedicar aos cuidados da criança. Segundo Anita, o marido prometeu ampliar a residência aos poucos.
Ela afirmou ter comprado os veículos que a equipe de limpeza encontrou danificados pelos resíduos. De acordo com seu relato, o marido utilizava os carros antigos nas empreitadas. A expectativa da equipe era que Anita pudesse vender os automóveis a colecionadores e obter uma renda para recomeçar. No entanto, esses e outros três veículos não seriam considerados raridades.

A triagem começa pelos metais, passa pelo papelão e PET, deixando para trás materiais que ocupam espaço e dão pouco retorno. Mas Anita falhava na separação. Ela cuidava do filho de dia e andava atrás de lixeiras à noite. Aos 73 anos, com problema na coluna e em uma perna, ela chegava exausta – o fardo era também mental.
A catadora via os resíduos como poupança. Mas o bairro enxergava o lixão particular como um lugar de doença e infestação. Em três dias, essa reserva financeira, o cheiro putrefato, os animais mortos foram embora.
Dezenas de voluntários se revezaram para tirar rápido a Anita de um lugar inóspito. Ela queria ter ficado com o álbum de bebê do filho, mas a equipe disse que todos os pertences estavam destruídos.
“A gente pegava nos objetos, roupas se desfaziam. Pelo tempo que isso estava, mais de 20 anos ali prensado”, conta Guilherme Gomes.
A vizinhança comemorou a faxina. Mas a casa sem lixo revelava uma mulher sozinha diante de uma pilha de problemas. Anita se deparou com o vazio, com o casamento interrompido, com a casa inacabada. A família está em um hotel social, com atividade física, cultural e religiosa.Não há remédio para lidar só com acumulação compulsiva.
“Esse é um problema crônico, que tende à recorrência. Então, é uma pessoa que precisa estar constantemente ali em acompanhamento de profissionais de saúde”, afirma o psiquiatra Daniel Costa.
Por Fantástico – TV Globo





