Entidades da saúde vão fiscalizar hospital após surto de bactérias

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Representantes de conselhos de saúde e sindicatos que representam trabalhadores da área demonstraram preocupação diante do surto de infecção por bactérias multirresistentes identificado no Hospital Regional Alfredo Mesquita Filho, em Macaíba, entre maio e julho deste ano.

Um relatório elaborado pela própria unidade indica 16 ocorrências de infecção ou colonização envolvendo 15 pacientes no período (um deles teve mais de uma notificação de colonização).

Segundo o documento, oito pacientes identificados com os microrganismos, morreram. A Sesap esclareceu não ser possível afirmar que as bactérias teriam sido a causa dos óbitos. O caso foi divulgado pelo G1 RN e confirmado pela TRIBUNA.

O presidente do Sindicato dos Médicos do RN (Sinmed), Geraldo Ferreira, e a vice-presidente e secretária do Conselho Regional de Enfermagem (Coren-RN), Dinara Moura, classificaram a situação como preocupante. O Coren disse que enviará uma equipe de fiscalização para averiguar as atuais as condições da unidade.

“A gente se preocupa com as informações divulgadas, mas precisamos entender o que está acontecendo e quais medidas de controle estão sendo adotadas. Enviaremos uma equipe de fiscalização o mais breve possível”, disse Dinara.

Geraldo Ferreira, do Sinmed, afirmou que a falta de insumos básicos, dentre outros fatores frequentemente registrados nas unidades, contribui para uma maior facilitação de quadros de infecção. “Por vezes faltam luvas ou gazes para curativos, há o uso de antibióticos substitutos aos que seriam ideais para tratar determinados casos, as enfermarias registram número de pacientes acima do adequado, bem como há pessoal insuficiente para as escalas. Este é um conjunto de fatores que geram a elevação do número de infecções.

A comissão de infecção do hospital deve ser acionada para imediatas providências e correção dos problemas”, defendeu o presidente do Sindicato.

A diretora do Sindsaúde/RN, Ana Karla Galvão, disse que vai agendar uma visita ao hospital para verificar as condições da unidade e dialogar com os trabalhadores. “Desde já, cobramos das autoridades – Sesap e Governo do Estado – que garantam uma saúde pública de qualidade, com estrutura adequada, condições dignas de trabalho, segurança para os profissionais e atendimento de qualidade para a população”, falou.

Em nota, o Conselho Regional de Medicina do RN (Cremern), disse ter tomado ciência do fato por meio da imprensa e esclareceu que irá apurar a situação para adotar providências quanto às condições da unidade. “O Cremern adotará as providências legais e regimentais cabíveis no tocante à questão, no âmbito de suas atribuições institucionais”, indicou o Conselho.

Relatório

Segundo o documento pós-incidente elaborado pela Comissão de Controle de Infecção Hospitalar (CCIH) e pelo Núcleo de Segurança do Paciente (NSP) do hospital no último dia 11, os casos de bactérias multirresistentes foram identificados inicialmente na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e depois se expandiram para a Clínica Médica.

A análise epidemiológica registra oito mortes até 29 de julho. O relatório identifica casos envolvendo Acinetobacter baumannii, Pseudomonas aeruginosa e Klebsiella pneumoniae, inclusive cepas resistentes. A tabela do relatório, porém, não estabelece que as infecções tenham sido a causa direta dos óbitos.

O documento mostra também que alguns dos primeiros pacientes já chegaram ao hospital com bactérias identificadas em outras unidades, como o Hospital Belarmina Monte, o Hospital Lindolfo Gomes Vidal, a UPA Pajuçara e a UPA de Macaíba. Em seguida, passam a aparecer registros classificados como infecção hospitalar do próprio Alfredo Mesquita.

O avanço do surto é atribuído pelo relatório a uma combinação de fatores, entre eles déficit crônico de recursos humanos, sobrecarga das equipes, ausência de leitos específicos de isolamento em determinados setores, inadequações do espaço físico e mobiliário danificado ou compartilhado. Segundo a CCIH e o NSP, essas condições comprometeram as barreiras de isolamento e favoreceram a transmissão.

As rondas também registraram umidade e mofo nas paredes de enfermarias, leitos, colchões e cadeiras danificados, problemas no expurgo, falhas na limpeza e compartilhamento de equipamentos entre pacientes. O relatório cita ainda resistência de profissionais ao uso completo dos EPIs e dificuldades na comunicação e na visualização de resultados de exames.

Durante o enfrentamento do surto, o plano de ação da unidade determinou restrições de circulação de pacientes entre a UTI e a Clínica Médica, além da orientação para evitar novas internações nos setores afetados até a contenção do quadro.

O plano também estabeleceu rastreamento diário de resultados laboratoriais, reforço de EPIs, intensificação da higienização, controle da circulação de acompanhantes e separação das equipes responsáveis pelos pacientes infectados ou colonizados.

O que diz a Sesap

Em entrevista à TRIBUNA DO NORTE, a secretária adjunta de Saúde do RN, Leidiane Queiroz, afirmou que os pacientes atendidos na UTI do Hospital de Macaíba já chegam, em geral, com quadros clínicos graves e esclareceu não ser possível afirmar que as mortes foram causadas pelas infecções.

“Nenhum desses óbitos dá para dizer que estaria ligado a essa infecção diretamente. Se você está dentro de uma UTI, com uma doença já terminal, e você adquire uma infecção, você tem um comprometimento maior, vai precisar de um tratamento mais prolongado e isso pode contribuir para um desfecho desfavorável”, explicou.

Ela confirmou que houve transmissão cruzada dentro da unidade e afirmou que a contaminação pode ocorrer por contato, por falhas de higienização das mãos, troca inadequada de EPIs ou compartilhamento de materiais entre leitos.

A secretária negou que haja déficit de profissionais na UTI, e disse que as áreas afetadas por umidade após o período de chuvas estão passando por serviços de pintura e manutenção. De acordo com o documento elaborado pelo hospital, os dois últimos isolamentos microbiológicos positivos registrados no documento ocorreram em 28 de julho.

O relatório previa o encerramento do regime de contingência em 12 de agosto, caso não fossem identificados novos casos.

Segundo Leidiane Queiroz, não surgiram novos casos relacionados ao episódio desde então. “Não tiveram novos casos, pelo menos de acordo com a informação que eu recebi da equipe”, afirmou.

Dos 15 pacientes relacionados ao surto, dois permaneciam internados no hospital até a manhã desta quinta-feira (20). Uma paciente já estava na enfermaria, sem sinais de colonização nos exames mais recentes e sem uso de antibióticos. O outro permanecia na UTI e teve o tratamento prolongado por decisão do infectologista.

Por Tribuna do Norte

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