O Brasil acaba de adicionar um capítulo crucial à história evolutiva da Terra com a descoberta do fóssil de uma nova espécie de réptil, o Silescelida acristata. A decisão de formalizar a descoberta ocorreu após a redescoberta de um fragmento essencial do material, que havia se perdido por quase duas décadas. O animal viveu há aproximadamente 240 milhões de anos, em um período anterior ao surgimento dos dinossauros. A importância deste achado reside na ampliação do conhecimento sobre a diversidade de répteis do Período Triássico e suas relações evolutivas, especialmente para a América do Sul.
Pesquisadores do Centro de Apoio à Pesquisa Paleontológica da Quarta Colônia, vinculado à UFSM (Universidade Federal de Santa Maria), conduziram o estudo. A publicação oficial da descoberta aconteceu nesta quarta-feira, 10 de junho de 2026, na conceituada revista científica Scientific Reports. O trabalho detalha a anatomia e a linhagem evolutiva do Silescelida acristata.
A jornada para a descrição formal desta nova espécie foi marcada por um imprevisto: parte do valioso material fossilizado, crucial para a análise, foi extraviada e permaneceu perdida por mais de 20 anos. A redescoberta ocorreu em 2022, durante uma visita técnica às instalações da coleção científica da PUCRS (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul), possibilitando finalmente a caracterização e nomeação do animal.
O fóssil foi extraído de rochas do Período Triássico, localizadas na área que hoje compõe o Geoparque Quarta Colônia UNESCO. Esta região tem se mostrado um tesouro paleontológico, já tendo revelado achados de grande relevância, incluindo vestígios de alguns dos dinossauros mais antigos conhecidos mundialmente.
O Silescelida acristata pertence ao grupo dos arcossauriformes, um ramo evolutivo de répteis que compartilham características anatômicas com dinossauros e crocodilos, situando-o em uma posição chave para o estudo da transição evolutiva desses grupos.
As análises filogenéticas indicam uma relação de parentesco entre o Silescelida acristata e o grupo Euparkeriidae, uma linhagem rara e ainda pouco decifrada, cujos fósseis eram conhecidos principalmente de África do Sul, China, Rússia, Polônia e Alemanha. Sua identificação no Brasil representa o primeiro registro de um membro desta família na América do Sul, expandindo significativamente a distribuição geográfica conhecida desses animais.
“Essa descoberta amplia significativamente a distribuição geográfica conhecida desses animais e reforça a importância do Brasil para o entendimento da evolução dos ancestrais dos arcossauros”, afirma o paleontólogo Maurício S. Garcia, principal autor do estudo e doutorando do Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade Animal da UFSM. Sua pesquisa destaca o papel do país na compreensão da história da vida na Terra.
Em termos de porte, o Silescelida acristata assemelhava-se a um pequeno jacaré, com um corpo esguio e locomoção quadrúpede. Sua dieta era composta provavelmente por pequenos animais, evidenciando seu papel no ecossistema do Período Triássico.
“Assim como espécies aparentadas, apresentava membros posicionados de forma semi-ereta, projetados mais abaixo do corpo do que lateralmente. Essa característica permitia uma locomoção mais eficiente e ágil, reduzindo o arrasto do ventre contra o solo e representando uma importante inovação na evolução dos ancestrais dos dinossauros e crocodilos”, detalha a UFSM. Essa adaptação postural foi fundamental para o desenvolvimento de grupos posteriores.
O fóssil recém-descrito do Silescelida acristata integra atualmente o acervo científico da PUCRS, em Porto Alegre, onde poderá ser estudado por futuras gerações de pesquisadores.
Origem do nome
O nome científico Silescelida acristata é uma combinação de termos que explicam suas características e a história de sua descoberta. ‘Silescelida’ une o latim ‘silentium’ (silêncio) e o grego ‘skelis’ (perna), aludindo ao longo período em que parte do fóssil esteve perdida e ao fato de o material encontrado ser predominantemente de membros.
O epíteto ‘acristata’ vem do latim e significa ‘sem crista’. A escolha se deve à ausência de uma crista óssea proeminente no fêmur do animal, estrutura essencial para a fixação da musculatura da cauda, distinguindo-o de parentes próximos.





